domingo, 24 de outubro de 2010

Quando Cassandra Calou-se ( e Sísifo rolou morro à baixo)

O grito dissipou-se na multidão. O bebê ainda mordiscava o seio enquanto a sombra crescente dava forma ao novo medo ainda sem nome. Um colosso feito de dor e lágrimas rompia o abdômen ainda suave de jovem. Seus olhos tão penetrantes quanto vazios, furtavam n'um passe o fôlego da massa. Hordas de exumadores de todos os gêneros se circundavam a besta, eram eles, outra vez. Era o Exército da Salvação, edificados em glória vil e irrevogável, impunes algozes, à sombra do medo, operando ferrenhamente pela inflexibilidade. Apagando nomes e atos, criando heróis e demônios, pisando todas as flores que ousam desabotoar longe de sua doentia compaixão. As espadas brandiram ao ar, o maxilar range. Cerram-se as cortinas para o clímax, sempre alarme falso, jocatinosas ofensas varridas pela azeda maré de água suja. Suas couraças são imunes à suscetibilidade, os escudos encantados pela firme e indubitável concepção de tudo, qual besta alguma se daria a coragem de aderir. É o que os diferia, afinal. As bestas já nasceram na lama, onde devem deteriorar. Correr sozinho entre as pantanosas margens é sua utopia, sem tocarem-se, agonizando, sendo atingidos por galhos feito lâminas. Vai ser aqui, nada que uma chuva das que te despertam o sentimento mais misantrópico não trate de apagar do solo. ELES, lhe cortando teixos da pele, persuadindo e corrompendo. O gigante cheio de pontos fracos declína, nada imprevisível para quem nasceu para perder. A multidão aos poucos retorna ao seu zumbido crescente e agonizante, é o que buscava, afinal: o silêncio. Valeu por toda essa sucessão de descasos quase aleatórios da qual jamais se atreveria chamar "vida". Escarram contra os escombros da eterna e imperceptível fera flagelada.

Todos continuarão grunhindo futilidades e pisando flores até o dia em que peguem em suas mãos e lhes façam puxar o gatilho.

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